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Úlcera Venosa: Cuidados com Feridas de Difícil Cicatrização nas Pernas

Úlcera Venosa: Cuidados com Feridas de Difícil Cicatrização nas Pernas

Nos consultórios de cirurgia vascular em Porto Alegre e Canoas, atendo diariamente idosos e pacientes adultos que convivem há meses — e por vezes anos — com feridas abertas, dolorosas e de difícil cicatrização na região dos tornozelos ou na parte inferior das pernas. É muito comum receber essas pessoas fragilizadas pelo uso prolongado de diversos tipos de pomadas, curativos caseiros e sabões antissépticos que não trouxeram o fechamento da lesão. Nesses contextos, é fundamental esclarecer um conceito central da medicina vascular: quando uma ferida na perna não cicatriza, o problema raramente é a pele em si, mas sim a falha na circulação sanguínea subterrânea que nutre essa pele. Na imensa maioria dos casos, estamos diante de uma úlcera venosa.

A úlcera venosa é a complicação mais avançada e grave da Insuficiência Venosa Crônica (IVC) não tratada. Ela representa o estágio final de um processo inflamatório em que a alta pressão de sangue represado nas veias destruiu a integridade dos tecidos cutâneos. Tratar a ferida apenas por fora, sem corrigir a causa vascular subjacente, é a principal razão pela qual essas lesões persistem sem cicatrizar. Preparei este artigo informativo para explicar como se forma a úlcera venosa, quais são os seus sinais característicos e como a abordagem vascular especializada atua no processo de cicatrização na nossa região.

Como se forma a Úlcera Venosa?

Para compreender por que a ferida surge e se recusa a fechar, precisamos entender a dinâmica da circulação de retorno das pernas. As veias possuem pequenas válvulas que direcionam o sangue para cima, em direção ao coração. Quando essas válvulas estão danificadas ou quando há varizes calrosas e refluxos não tratados, o sangue sofre com a força da gravidade e fica retido na parte mais baixa das pernas (hipertensão venosa).

Com o passar dos anos, essa pressão sanguínea cronicamente elevada dentro das veias dos tornozelos provoca uma sequência de alterações nos tecidos:

  1. Extravasamento e Acúmulo de Fluidos: A alta pressão força a saída do plasma e das células sanguíneas (glóbulos vermelhos) do vaso para o tecido subcutâneo.
  2. Pigmentação e Inflamação da Pele (Dermatite Ocre): A degradação da hemoglobina dos glóbulos vermelhos extravasados deposita ferro na pele, tornando a região do tornozelo com uma coloração castanha, escura ou arroxada.
  3. Enrijecimento da Pele (Lipodermatoesclerose): A inflamação crônica substitui a gordura subcutânea macia por um tecido fibroso, duro e rígido, que cicatriza com dificuldade e deixa a perna com um aspecto de “garrafa de champanhe invertida”.
  4. Ruptura da Pele e Surgimento da Ferida: Com a pele desnutrida, fina e inflamada, qualquer pequeno arranhão, picada de inseto ou trauma banal é suficiente para romper a epiderme. Como a circulação local está comprometida, o organismo não consegue suprir a área com oxigênio e nutrientes para fechar o machucado, dando origem à úlcera venosa aberta.

Sinais e características da Úlcera Venosa

A úlcera de origem venosa apresenta características clínicas bem definidas que a diferenciam de outros tipos de feridas (como as úlceras arteriais ou neuropáticas):

  • Localização Típica: Ocorre predominantemente na chamada “área do calce” (região inferior da perna, logo acima do tornozelo, especialmente na face interna do membro — maléolo medial).
  • Bordas Irregulares e Superficiais: É uma ferida habitualmente rasa, de contornos irregulares, que pode apresentar um fundo avermelhado ou amarelado (fibrina) e secreção (exsudato) de moderada a abundante.
  • Pele Redor Alterada: A pele ao redor da ferida quase sempre apresenta sinais de insuficiência venosa avançada: coloração escura (dermatite ocre), inchaço contínuo, eczema (descamação e coceira) e textura enrijecida ao toque.
  • Comportamento da Dor: Embora dolorosa, a dor da úlcera venosa tende a ser de intensidade moderada e apresenta uma característica marcante: ela melhora quando a perna é elevada e piora quando a perna fica pendente para baixo, pois a elevação reduz a pressão venosa local.

As diferenças entre Úlcera Venosa e Úlcera Arterial

Identificar a causa exata da ferida é um passo indispensável, pois o tratamento de uma ferida venosa é oposto ao de uma ferida arterial. Tentar comprimir uma perna com ferida de origem arterial pode causar complicações graves.

CaracterísticaÚlcera VenosaÚlcera Arterial
Causa RaizDificuldade no retorno do sangue (Veias)Falta de chegada de sangue oxigenado (Artérias)
LocalizaçãoRegião do tornozelo (face interna)Dedos dos pés, calcanhares ou proeminências ósseas
Aspecto da LesãoRasa, bordas irregulares, úmidaProfunda, bordas “em saca-bocado”, pálida ou seca
Efeito da ElevaçãoA dor melhora ao elevar a pernaA dor piora ao elevar a perna
Pulsos nas PernasPulsos arteriais presentes e palpáveisPulsos arteriais ausentes ou muito fracos

O pilar do tratamento: Tratar a Causa Vascular e a Ferida

O fechamento definitivo da úlcera venosa exige uma estratégia combinada que atue em duas frentes simultâneas: controlar a pressão da veia por dentro e promover a cicatrização da lesão por fora.

1. Diagnóstico por Eco Doppler Vascular

Antes de indicar qualquer conduta, realizamos o exame de Eco Doppler Vascular no consultório. Ele permite identificar quais veias estão com refluxo (como a veia safena ou veias perfurantes doentes) e, fundamentalmente, comprovar se as artérias da perna estão saudáveis e suportam a terapia de compressão.

2. Eliminação do Refluxo Venoso (Tratamento da Causa)

Se houver veias varicosas ou safenas doentes alimentando a hipertensão venosa no tornozelo, essas veias precisam ser tratadas. Atualmente, dispomos de técnicas minimamente invasivas, como a escleroterapia com espuma densa ou o laser endovenoso (endolaser), que podem ser aplicadas para fechar o vaso doente sem a necessidade de cirurgias abertas, reduzindo a pressão de sangue que chega à ferida e permitindo que o tecido comece a se regenerar.

3. Terapia Compressiva Medicina (O pilar de Ouro)

Sem a compressão externa da perna, a úlcera venosa dificilmente fechará. O uso de sistemas de compressão graduada — como bandagens elásticas ou inelásticas (Bota de Unna, sistemas de multicamadas ou meias de compressão adequadas) — exerce uma força externa que espreme as veias dilatadas, reduz o inchaço e forças a saída do líquido represado, reativando a circulação microvascular necessária para a cicatrização. Atenção: A terapia de compressão só pode ser aplicada após o cirurgião vascular confirmar que as artérias do paciente estão saudáveis.

4. Curativos Tecnológicos e Higiene da Lesão

A escolha do curativo adequado visa controlar a umidade da ferida, proteger contra infecções bacterianas e estimular a formação de novo tecido (granulação). A indicação do tipo de cobertura (alginatos, hidrofibras, espumas de poliuretano ou prata) varia conforme a fase da lesão e a quantidade de secreção presente.

Acompanhamento especializado em Porto Alegre e Canoas

O tratamento de feridas de difícil cicatrização demanda paciência, acompanhamento médico regular e rigor técnico. Se você ou algum familiar convive com um machucado na perna que não fecha, busque uma avaliação vascular detalhada antes de aplicar produtos por conta própria.

Para os moradores de Porto Alegre, os atendimentos estão disponíveis na clínica Diagsul, na Rua Ramiro Barcelos (Bairro Floresta). Para quem reside em Canoas e na Região Metropolitana, o suporte é oferecido na Clinicare.

Tratar a circulação é o primeiro passo para promover a cicatrização das pernas. Agende uma consulta para avaliarmos o seu caso de forma integrada.

Artigo escrito pelo Dr. Fábio Gomes (CRM-RS 26488 / RQE 17673 / RQE 23922). Este conteúdo tem caráter puramente educativo e de orientação social, não substituindo a avaliação médica em consultório para fins de diagnóstico ou tratamento de condições específicas.