Com a proximidade de férias, viagens de negócios ou trajetos prolongados partindo de Porto Alegre e Canoas — seja pelo Aeroporto Salgado Filho ou pelas rodovias que cortam a nossa Região Metropolitana —, recebo com frequência no consultório pacientes preocupados com os impactos de passar muitas horas sentados em aviões, ônibus ou carros. Na medicina vascular, esse cenário de imobilidade prolongada em espaços reduzidos é conhecido popularmente como a “Síndrome da Classe Econômica”, uma condição que pode favorecer a lentidão da circulação venosa nas pernas e elevar o risco de Trombose Venosa Profunda (TVP).
Embora o nome faça referência às poltronas do avião, esse risco não é exclusivo do transporte aéreo; ele existe em qualquer modalidade de viagem em que o passageiro ou motorista permaneça com as pernas dobradas e sem movimentação por mais de 4 horas consecutivas. A boa notícia é que a trombose associada a viagens pode ser prevenida na grande maioria dos casos por meio de medidas simples de cuidados com a circulação. Preparei este guia educativo com as principais recomendações da cirurgia vascular para você viajar com tranquilidade e manter as suas pernas protegidas.
O que é a Síndrome da Classe Econômica e por que ela ocorre?
O termo “Síndrome da Classe Econômica” foi cunhado no final do século XX para descrever a ocorrência de eventos trombóticos em passageiros após voos de longa distância. O principal fator desencadeante para esse problema é a combinação de três elementos que prejudicam o retorno venoso:
- Imobilidade Muscular das Panturrilhas: As veias das pernas dependem da contração dos músculos da panturrilha (o nosso coração periférico) para empurrar o sangue de volta ao coração. Quando você passa horas sentado, esses músculos ficam parados e a gravidade faz com que o sangue fique acumulado (represado) na região dos tornozelos e pés.
- Compressão Mecânica nas Coxas: A postura sentada mantida por longos períodos provoca uma dobra contínua nas veias localizadas na virilha e na parte posterior dos joelhos, atuando como um gargalo físico ao fluxo sanguíneo.
- Ambiente com Baixa Umidade e Desidratação: Especialmente em cabines de aviões, a umidade relativa do ar é muito baixa. Aliado ao consumo insuficiente de água ou à ingestão de bebidas alcoólicas e diuréticas (como o café), o organismo perde líquidos, tornando o sangue ligeiramente mais denso (hiperviscoso), o que favorece a agregação plaquetária.
Essa estase sanguínea (sangue parado) associada ao aumento da viscosidade cria um ambiente favorável para a formação de um coágulo (trombo) no interior de uma veia profunda da perna, caracterizando a Trombose Venosa Profunda.
Quem faz parte do grupo de maior risco em viagens?
Embora qualquer pessoa possa sentir inchaço ou cansaço nas pernas após horas de viagem, o risco de desenvolver uma trombose é significativamente maior em indivíduos que apresentam fatores de risco prévios. Se você se enquadra em uma das situações abaixo, a avaliação com o cirurgião vascular antes da viagem torna-se ainda mais importante:
- Histórico pessoal ou familiar de Trombose Venosa Profunda ou Embolia Pulmonar.
- Presença de varizes calrosas de longo curso sem acompanhamento.
- Uso de anticoncepcionais orais combinados ou terapia de reposição hormonal (TRH).
- Gestantes ou mulheres no período pós-parto imediato (puerpério).
- Pacientes em tratamento oncológico ativo ou com doenças trombofílicas (alterações genéticas da coagulação).
- Pessoas que passaram por cirurgias de grande porte recentes (especialmente ortopédicas em joelho e quadril).
- Idosos, obesos ou indivíduos com mobilidade reduzida.
Estratégias práticas para proteger as suas pernas durante a viagem
Adotar hábitos preventivos simples antes e durante o trajeto reduz substancialmente o represamento de sangue nas veias e proporciona muito mais conforto para a sua viagem:
1. Movimente os pés e tornozelos periodicamente
Mesmo sem sair da poltrona do avião ou do ônibus, é possível manter a bomba muscular da panturrilha em atividade. A cada 30 ou 45 minutos, faça exercícios simples de flexão e extensão do tornozelo: apoie os calcanhares no chão e levante as pontas dos pés de 15 a 20 vezes; em seguida, apoie as pontas dos pés e eleve os calcanhares. Esse movimento ritmado estimula o fluxo de sangue pelas veias profundas.
2. Faça pequenas caminhadas no corredor ou paradas na estrada
Em voos de longa duração, levante-se a cada duas horas para caminhar alguns minutos pelo corredor da aeronave. Em trajetos de carro ou ônibus pela Região Metropolitana e rodovias intermunicipais, planeje paradas regulares a cada duas horas para desembarcar, caminhar um pouco e esticar as pernas antes de seguir viagem.
3. Mantenha uma hidratação abundante
Beba água de forma constante ao longo de todo o percurso. Mantenha uma garrafa de água ao seu alcance e evite permanecer longos períodos sem se hidratar. Reduza o consumo de bebidas alcoólicas, refrigerantes e café durante a viagem, pois o álcool e a cafeína possuem efeito diurético que contribui para a desidratação e o adensamento do sangue.
4. Escolha roupas confortáveis e folgadas
Evite viajar usando calças jeans extremamente justas, cintos apertados ou meias sociais com elásticos rígidos na altura da panturrilha. Roupas apertadas exercem compressão mecânica sobre as veias superficiais e abdominais, dificultando a subida do sangue. Dê preferência a tecidos leves, elásticos e calçados confortáveis que não façam garrote.
5. Considere o uso de meias de compressão elástica para viagem
Para a maioria dos viajantes com ou sem fatores de risco, o uso de meias medicinais de compressão graduada (geralmente modelos de suave a média compressão que vão até o joelho – 3/4) é uma das medidas preventivas mais eficazes. A meia exerce uma pressão calibrada no tornozelo que impede a dilatação excessiva das veias e o acúmulo de líquido nos tecidos. A indicação do tamanho e da pressão exata deve ser avaliada em consulta médica para evitar garroteamentos.
6. Uso de medicações profiláticas (apenas com prescrição médica)
Para pacientes classificados como de alto risco para eventos trombóticos, o cirurgião vascular pode prescrever, em casos selecionados, o uso temporário de medicações anticoagulantes preventivas (injetáveis ou orais) antes de embarcar. Atenção: Jamais tome medicamentos para “afinar o sangue” ou aspirina por conta própria antes de viajar, pois o uso incorreto de anticoagulantes sem indicação precisa pode causar sangramentos graves.
Sinais de alerta pós-viagem: Quando buscar avaliação médica?
Na maioria das vezes, os sintomas de uma trombose decorrente de viagem não surgem imediatamente durante o voo, mas sim nos dias subsequentes ao desembarque (podendo se manifestar em até duas semanas após o trajeto).
Fique atento e busque avaliação médica especializada caso perceba em apenas uma das pernas:
- Inchaço visível e persistente no tornozelo ou na panturrilha.
- Dor profunda e contínua no membro, semelhante a uma cãibra forte que piora ao caminhar.
- Sensação de calor local e vermelhidão ao longo do trajeto venoso.
- Sensação de endurecimento muscular na panturrilha.
⚠️ Sinal de Urgência Hospitalar: Caso surjam sintomas súbitos como falta de ar repentina, dor no peito ao respirar fundo, tontura ou tosse, procure imediatamente um serviço de pronto-atendimento hospitalar, pois estes podem ser sinais de Tromboembolismo Pulmonar (TEP).
Acompanhamento e avaliação pré-viagem em Porto Alegre e Canoas
Se você tem uma viagem longa programada e apresenta histórico de varizes, inchaço ou fatores de risco para trombose, realizar uma avaliação vascular prévia é o caminho mais seguro para viajar com tranquilidade. Na consulta, realizaremos a verificação do seu sistema venoso e a indicação precisa do uso de meias elásticas ou condutas preventivas adequadas.
Para os moradores de Porto Alegre, os atendimentos estão à disposição na clínica Diagsul, localizada na Rua Ramiro Barcelos (Bairro Floresta). Para quem reside em Canoas e na Região Metropolitana, as avaliações ocorrem na Clinicare.
Planeje a sua saúde vascular antes de embarcar. Agende uma consulta para orientarmos as melhores condutas para a sua viagem.
Artigo escrito pelo Dr. Fábio Gomes (CRM-RS 26488 / RQE 17673 / RQE 23922). Este conteúdo tem caráter puramente educativo e de orientação social, não substituindo a avaliação médica em consultório para fins de diagnóstico ou tratamento de condições específicas.

